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Rostos Santacombadenses

... dar voz aos filhos de Santa Comba Dão!

Rostos Santacombadenses

... dar voz aos filhos de Santa Comba Dão!

José Luiz de Oliveira

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O Zé Sancho é um daqueles rostos que ocupa lugar de destaque na memória do burgo santacombadense. Quem o conheceu dificilmente esquece a sua figura vestida com camisola sobre camisola e um casaco pendurado no ombro esquerdo. As calças, onde quase sempre um cordão fazia as vezes de cinto, andavam ao fundo da barriga e as botas calçavam pés despidos de meias. Cabelos nem vê-los, andavam sempre escondidos sob o indispensável chapéu ou boina e mesmo no tempo quente não desnudava os braços. Não haverá alguém que o tenha testemunhado, como poucos serão os que o viram de cabeça descoberta, excepção feita aos que o visitaram nos últimos tempos de vida no Lar da Misericórdia e, claro, aos funcionários da instituição que dele cuidaram de maneira que os meses que antecederam a sua "partida" não fossem tão duros quanto a sua vida o foi. 
Antes mesmo do nascimento, o Zé foi traído p'los deuses que fazem a distribuição do discernimento mental aos comuns mortais, e se uns podem considerar como privilégio a força fora do comum que possuía, outros poderão dizer que foi mais uma traição porque nem sempre essa força teria sido devidamente remunerada já que a mente dele não sabia reivindicar. Salvam-se excelsas excepções, evidentemente, que para além do pagamento monetário dos seus serviços o alimentavam de forma condigna. A fama da sua força era sobejamente conhecida, era até motivo de "conversa de esquina". Enaltecia-se aquela "força da natureza" capaz de transportar dois sacos de cinquenta quilos, um saco debaixo de cada um dos seus robustos braços. Fossem eles sacos de adubo, em tempos que descarregar uma camioneta ou um vagão de comboio era feito de maneira braçal, ou fossem sacos de sal, farinha, batatas ou milho, enfim sacos de tudo e mais alguma coisa. Situação onde a força estivesse em falta, o Zé era chamado e era vê-lo também a transportar carcaças de reses abatidas. E muitos outros "pesos-pesados". Mas o Zé fazia de tudo um pouco, trabalhos onde a mente não fosse muito solicitada, claro, desde rachar lenha e transportá-la, carregar uma botija de gás ou fazer uns recados mais leves, especialmente já para o fim da vida em que a força estava a fugir, porque com a idade também a força o resolveu trair. Em suma, foi pau para toda a colher, ou se quiserem, ombro para toda a carga: foi moleiro, magarefe, agricultor, estivador, moço de fretes, lenhador e até condutor de burros. Bebia o seu copo de vinho e fumava um cigarrito mas raramente puxava pelas moedas que trazia no bolso embrulhadas em nó indesatável no lenço de assoar, porque tinha muitos amigos que com carinho lhe ofertavam. Pra conseguir o cigarro estendia apenas a mão e o cravado que compreendesse o que ele queria. Quanto às moedas, iam com ele fazer companhia às outras que amealhava lá em casa, mas delas não obteve proveito. P'lo menos não consta, consta sim, que os que dividiram o pote é que lhe chamaram um figo, afinal caiu-lhes de um céu que antes nem se lembravam que existia.
O José Luiz de Oliveira faria este ano o seu centenário já que nasceu no ido ano de 1915, precisamente em 16 de Outubro, dia que em princípio é como um outro qualquer, claro, mas não deixa de ser curioso e merecedor de referência que alguém que passou fome tenha resolvido nascer em data que posteriormente recebeu a pomposa designação de Dia da Alimentação. Dos pais do Zé pouco reza a história, sabe-se que a mãe, com quem viveu até ela se finar, se chamava Rita, "Rita Sancha", e que tinha dois irmãos, o Miguel [Miguel "Sancho", também "Duque"] que residia no Rossio em Santa Comba, e o "Gaitas do Couto", do Couto do Mosteiro evidentemente. Residia ao fundo do Bairro da Ribeira, na quelha que nos atrevemos a chamar de sua, Quelha do Zé Sancho, em casa humilde vizinha da do casal "Pica", Dionísio e Ermelinda.
Quando a doença o atacou, o Zé Sancho foi internado no Lar da Santa Casa da Misericórdia e em 23 de Setembro de 1997, prestes a concluir 82 anos, resolveu descansar.

... a foto tem a assinatura de Paulo Neves, Foto Flash, e os dados são pertença da memória das gentes

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